Desenvolvedores japoneses ainda resistem à saída da Sony do mercado de mídia física.
A reação negativa ao plano da Sony de acabar com os discos físicos do PlayStation ganhou força com duas vozes de peso da própria empresa. O presidente da Sega saiu em defesa da mídia física, enquanto o criador da série Disgaea foi além, argumentando que, se a Sony vai abandonar os discos, deveria abandonar também o console. Ambos os comentários foram feitos em 24 de julho, três semanas após o início da controvérsia que a Sony se recusa a abordar.
Em entrevista à Famitsu, o presidente da Sega, Shuji Utsumi, afirmou que a empresa ainda valoriza muito a mídia física, mesmo investindo cada vez mais no digital. Ele considerou essa transição para o digital crucial, destacando o número crescente de jogadores de PC, inclusive em regiões onde os consoles são difíceis de encontrar.
"Originalmente, éramos um provedor de plataforma e, claro, ainda valorizamos a cultura da mídia física. Em vez de abandoná-la completamente, estamos nos desafiando a mudar para que possamos pensar e agir em paralelo sobre os aspectos importantes da mídia digital."
-Shuji Utsumi

Para os jogos que a Sega chama de "jogos completos" para consoles e PC, ele vê uma mudança para o digital como crucial, e quer que a empresa se torne mais consciente do digital e mais global, em vez de priorizar o formato físico, especialmente porque o público de PC continua crescendo em lugares onde os consoles nunca chegaram.
Recentemente, Hideo Kojima republicou um alerta de 2021 sobre como um mundo exclusivamente digital pode ter seu acesso cortado da noite para o dia, e o veterano desenvolvedor do grupo Sony, Masami Yamamoto, observou que abandonar a versão em disco dá às equipes cerca de seis semanas extras de polimento por jogo. Os jogadores lamentaram o fim das lojas de usados e das edições físicas limitadas que atraem muitos para o PlayStation em detrimento do PC, e o clima azedou ainda mais porque a Sony fez o anúncio no mesmo dia em que fechou as lojas do PS3 e do PS Vita e pouco antes de excluir mais de 550 filmes comprados sem reembolso.
Essa perspectiva é moldada pelo próprio passado da Sega. A empresa já foi fabricante de hardware e, após abandonar a corrida dos consoles, obteve muito mais sucesso como distribuidora. Utsumi descreveu o momento atual como um ato de equilíbrio, desejando que a Sega se tornasse mais voltada para o digital e mais global, sem abandonar completamente o lado físico. É uma posição notavelmente ponderada em comparação com a fúria desenfreada que se vê em outros lugares.
A opinião mais incisiva veio de Sohei Niikawa, criador dos RPGs Disgaea, em comentários vistos pelo Eurogamer. Em entrevista ao Noisy Pixel na Anime Expo 2026, Niikawa disse que entende a lógica comercial, mas não gosta dela, e suspeita que os executivos por trás da decisão nunca estiveram em uma convenção enquanto um fã lhes entregava um jogo físico para autografar.
"Se eles vão ao ponto de eliminar as embalagens físicas, podem muito bem eliminar também o hardware. Uma televisão já seria suficiente. Para que você precisaria do console? Se vão se livrar dos jogos físicos, podem muito bem ir até o fim."
-Sohei Niikawa
Seu argumento era menos sobre vendas e mais sobre conexão: a cópia física é o que um fã leva para ser autografada, o objeto que demonstra a importância do jogo para alguém. Niikawa não trabalha mais com a Nippon Ichi, o estúdio por trás de Disgaea, e está desenvolvendo um novo RPG de estratégia chamado Demons' Night Fever, com publicação da Arc System Works. O jogo mantém suas marcas registradas, imagens infernais e números de dano absurdamente altos, e tem previsão de lançamento para 2026 para PS5, Nintendo Switch e PC.

Minha posição sobre a questão do disco não mudou: a mudança em si é um recuo orgânico de um formato, não uma traição a ele, então não preciso que a Sony volte atrás. O que eu gosto na abordagem de Utsumi é que ele nomeia o que realmente vale a pena proteger, a cultura em torno da mídia física, porque a perda que me preocupa é a da propriedade, não do plástico. A frase de Niikawa "então abandonem também o hardware" é uma provocação, mas funciona para mim, já que uma caixa fechada à qual você só tem acesso por meio de aluguel é uma proposta mais incisiva do que o console jamais foi.
A decisão à qual todos estão reagindo foi tomada em 1º de julho, quando a Sony anunciou que deixaria de produzir discos para novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028, passando a vender exclusivamente em formato digital na PlayStation Store e em lojas físicas. A Sony sabia da reação negativa que viria, tendo, segundo relatos, fornecido aos funcionários as diretrizes mais rigorosas de sua história para o uso de mídias sociais antes do anúncio, e mesmo assim seguiu em frente, destacando que os downloads representariam cerca de 78% das vendas de jogos em 2025.
Em um jogo físico de primeira linha, a Sony fica com aproximadamente 65% do preço após a dedução da parte do varejista e da fabricante; em uma venda digital, ela fica com tudo, e sua porcentagem em títulos de terceiros também aumenta. As mídias físicas representam atualmente apenas cerca de 5% da receita de software de jogos da Sony, e a empresa lucra mais com complementos e compras dentro do jogo do que com a venda de jogos completos, sejam eles físicos ou digitais.
Uma petição no Change.org contra a mudança ultrapassou 335.000 assinaturas, campanhas com as hashtags #BoycottSony e "Sem Disco, Sem Compra" continuam se espalhando, e a indignação se estendeu a jogos não relacionados. Quando a Insomniac lançou o trailer de Marvel's Wolverine este mês, os comentários se encheram de reclamações sobre o disco em vez de elogios a Logan, e publicações sobre Marvel Tokon e PowerWash Simulator seguiram a mesma tendência. No PlayStation Blog, milhares de comentários se acumularam em poucas horas, muitos deles girando em torno da mesma reclamação sobre pagar o preço integral por algo que não vale a pena, e pedidos para o cancelamento da PlayStation Plus em protesto se espalharam pelas redes sociais. Os fãs levantaram questões como revenda, presentes, preservação de jogos e como os preços se estabilizarão quando o disco deixar de ser uma opção.
Apesar de toda a polêmica, a Sony não demonstrou qualquer intenção de recuar. A União Europeia afirmou não ter fundamentos legais para obrigar a empresa a continuar vendendo discos, e analistas esperam que a Sony simplesmente espere a tempestade passar, apostando que sua enorme base de consoles absorverá quaisquer cancelamentos decorrentes de protestos. A posição da Sega se destaca justamente por ser um raro contraponto público vindo de uma grande editora japonesa, mesmo que Utsumi faça questão de ressaltar que o mercado digital também importa. Por ora, os nomes mais influentes do mercado de jogos japonês podem registrar sua discordância, mas nenhum deles pode mudar os planos da Sony.
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