Sony silenciou funcionários antes de acabar com os discos do PlayStation, diz desenvolvedor.
A Sony previu a revolta. De acordo com uma nova declaração de um ex-desenvolvedor de God of War, a empresa se preparou para isso isolando seus funcionários e entregando-lhes as diretrizes de mídia social mais rígidas que já haviam recebido, para que ninguém comentasse a decisão de encerrar os discos do PlayStation.
A afirmação vem de Alanah Pearce, roteirista de God of War, que a detalhou em um novo vídeo no YouTube. Segundo o IGN, Pearce disse que colegas dos estúdios próprios da PlayStation lhe contaram que as restrições em torno do anúncio do jogo em disco foram as mais rigorosas que já viram, um sinal de que a Sony esperava uma forte reação negativa.
"A Sony já sabia que todos ficariam irritados."
— Alanah Pearce
Pearce disse que a Sony às vezes informa aos funcionários o que eles podem e não podem dizer publicamente, e que ela trabalhou seguindo suas próprias diretrizes em God of War Laufey. Desta vez foi diferente. As pessoas com quem ela conversou descreveram as regras de comunicação como as mais rígidas que já haviam visto, o que ela interpretou como prova de que a empresa sabia o que estava por vir.
"Eles só teriam feito isso se soubessem que seria um enorme problema de relações públicas. Isso não é nenhuma surpresa para eles."
— Alanah Pearce
A controvérsia remonta a 1º de julho, quando a Sony anunciou que deixaria de produzir discos físicos para todos os novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. Após essa data, os novos lançamentos serão vendidos apenas em formato digital na PlayStation Store e em lojas físicas. Os jogos já lançados ou que forem lançados antes do prazo final manterão suas versões em disco.
Em sua postagem no blog, a Sony justificou a mudança como uma resposta aos seus clientes, em vez de uma imposição. O diretor sênior de comunicações, Sid Shuman, escreveu que os hábitos de consumo mudaram tanto que o formato não faz mais sentido. A Sony apontou para o fato de que os downloads representarão cerca de 78% das vendas de jogos em 2025 como justificativa para a mudança.
"Essa é uma direção natural para a Sony Interactive Entertainment se adaptar às tendências de consumo, já que a preferência geral por mídia digital supera significativamente a de discos físicos."
— Sid Shuman
O modelo de negócios é simples. Em um jogo físico próprio, a Sony fica com aproximadamente 65% do preço, com cerca de 30% indo para o varejista e o restante para a fabricação; em uma venda digital do mesmo jogo, ela fica com tudo. Para discos de terceiros, ela cobra apenas uma taxa de licenciamento, provavelmente em torno de 15%, enquanto as vendas digitais de terceiros rendem muito mais. O analista Daniel Ahmad estimou que a participação da Sony em um jogo de terceiros de US$ 70 seja de cerca de US$ 21 na loja, aproximadamente o dobro da porcentagem do varejo.
A tendência é igualmente unilateral. As vendas digitais de jogos completos subiram de menos de 10% antes da era do PS4 para cerca de 80% no PlayStation atualmente, e mais de 90% no Xbox. As mídias físicas agora representam apenas cerca de 5% da receita total de software de jogos da Sony, embora os discos ainda representem uma parcela maior das unidades vendidas. Aproximadamente 70 milhões de discos de PS5 foram vendidos no ano passado, contra 120 milhões no ano de lançamento do console, e mais de 30% dos PS5 vendidos não possuem leitor de discos. Ahmad também observou que metade dos jogos de PS5 mais jogados em maio, incluindo Fortnite, GTA 5 e Call of Duty, não são distribuídos em disco, e que a Sony agora lucra mais com complementos e compras dentro do jogo do que com a venda de jogos completos de qualquer tipo.
Nada disso arrefeceu a reação. Uma petição no Change.org contra a decisão ultrapassou 335 mil assinaturas, e campanhas com as hashtags #BoycottSony e "Sem Disco, Sem Compra" continuam circulando. No PlayStation Blog, milhares de comentários surgiram em poucas horas, muitos repetindo versões da mesma frase sobre não possuir nada e ser incentivado a se alegrar com isso. Alguns compradores de longa data disseram que o PS5 seria seu último PlayStation, e outros apontaram para uma recente decisão de remover filmes comprados das bibliotecas digitais como motivo para não confiar na aquisição exclusivamente digital. Apelos para o cancelamento da PlayStation Plus em protesto se espalharam pelas redes sociais.
Os analistas não acreditam que nada disso funcione. O Dr. Serkan Toto, que dirige a consultoria Kantan Games, disse à IGN que a Sony já havia avaliado a reação online e está simplesmente aguardando o desenrolar dos acontecimentos.
"Eu entendo os fãs de mídia física, mas a Sony não vai reverter essa decisão. Eles obviamente sabiam qual seria a reação online e agora estão esperando a tempestade passar."
— Dr. Serkan Toto
Toto colocou a escala em perspectiva. A Sony tem mais de 120 milhões de usuários ativos do PlayStation e cerca de 50 milhões de assinantes da PlayStation Plus; mesmo meio milhão de cancelamentos, argumentou ele, representariam cerca de 1% desse mercado, o que está longe de ser suficiente para impactar a empresa.

Os órgãos reguladores oferecem pouca proteção. O Comissário Europeu Michael McGrath, responsável pela proteção do consumidor, afirmou que o bloco tem poucos fundamentos jurídicos para obrigar a Sony a continuar vendendo discos, considerando a distribuição uma questão de liberdade comercial e contratual. Seus comentários seguiram a decisão da Comissão Europeia de rejeitar a proposta do movimento Stop Killing Games por regras de preservação, optando por um código de conduta voluntário.
Desde então, a Sony suavizou as arestas, sem mudar de rumo. Informações indicam que os jogos em disco não desaparecerão imediatamente: as distribuidoras ainda podem encomendar tiragens em disco, e as caixas de varejo podem vir com um código digital em vez de um disco por um tempo. Não se sabe ao certo quanto tempo essa fase intermediária durará, mas a direção que tomaremos não está em dúvida.
A decisão não surgiu do nada. O ex-chefe da PlayStation, Shawn Layden, afirmou que a empresa já considerava um futuro sem discos durante sua gestão, com o digital representando quase 95% da receita, e descreveu a decisão como basicamente um exercício de planejamento. A Rockstar já havia confirmado que GTA 6 não teria versão em disco. A notícia sobre a ausência de discos veio no mesmo dia em que a Sony anunciou o fechamento das lojas do PS3 e do PS Vita, e a próxima geração de consoles, que deve elevar o preço para perto de US$ 1.000 com o aumento dos preços da memória, paira sobre o momento da decisão.
A indústria não está se movendo em uníssono. A Nintendo ainda apoia lançamentos físicos no Switch 2, mesmo que sejam na forma de cartões com chaves de jogos, e precifica as versões digitais cerca de US$ 10 mais baratas, um caminho intermediário que a Sony não demonstrou interesse em seguir.

Deixemos a indignação de lado por um momento. Eu disse isso quando a notícia foi divulgada, e minha opinião não mudou: parece que os disquetes estão desaparecendo, um recuo natural de um formato em vez de uma traição, com um lado positivo real: os disquetes se tornarão lentamente objetos retrô que valem a pena colecionar. A parte pela qual eu realmente lutaria é mais específica, porque comprar um jogo está se transformando silenciosamente em comprar uma licença para jogar, e caminhamos para uma situação em que não possuímos nada digital sem percebermos a linha que cruzamos. O que eu quero é uma alternativa: que as editoras produzam seus próprios discos ou incluam um cartão de memória no lugar do disco, mesmo que eu não espere que a Sony o faça.
A indignação se espalhou para jogos que não tinham nada a ver com a decisão. Quando a Insomniac lançou o novo trailer cinematográfico de Marvel's Wolverine neste mês, o vídeo ultrapassou um milhão de visualizações em um dia, mas os comentários mais populares eram sobre discos, não sobre Logan. Os fãs transformaram o slogan da Sony "Jogar não tem limites" em "Jogar tem limites", e a mesma onda atingiu publicações sobre Marvel Tokon e PowerWash Simulator. A Insomniac não tomou a decisão sobre os discos, e Marvel's Wolverine ainda será lançado com um disco na caixa, sendo um dos últimos jogos exclusivos do PlayStation a fazer isso.
A reação negativa também chegou ao mercado doméstico da Sony, onde Hideo Kojima republicou um antigo aviso de que um mundo exclusivamente digital pode ter seu acesso bloqueado sem aviso prévio, e desenvolvedores dentro do grupo Sony levantaram preocupações tanto com a preservação quanto uma vantagem prática: eliminar a versão em disco libera cerca de seis semanas extras de polimento por jogo.
Leia também: Marvel Tokon: Fighting Souls, da Sony, terá um beta aberto de 72 horas de 24 a 27 de julho para PS5 e PC, com 15 dos 20 lutadores de lançamento, modos online ranqueados e casuais, treinamento e jogo local, além dos três primeiros capítulos do Modo Episódio, liderado pelo Homem-Aranha. O lançamento está programado para o mesmo fim de semana em que a Sony participa da San Diego Comic-Con e dez dias antes do lançamento oficial em 6 de agosto.
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